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DANIEL EXCLUSIVO: “Quero acabar com o preconceito aos jogadores do Nordeste na Seleção”

Com exclusividade ao eusoubahia.com, lateral, Campeão em Toulon com Seleção Sub-21, diz que sonha em ser convocado para selecionado principal como jogador do Bahia.

30 maio 2002 | 17H38

Por Darino Sena,
editor do eusoubahia.com

Dono da camisa número 2 do Brasil, ele foi o único jogador do futebol nordestino entre os 18 que levaram a Seleção Brasileira a conquistar o Hexa-Campeonato do Torneio de Toulon, na França – um dos mais tradicionais e importantes do mundo na categoria.

Mas isso foi só um dos pontos altos deste início de carreira do lateral-direito Daniel, do Bahia. Com 20 anos, ele acha que ainda tem muitos objetivos a alcançar – como o de chegar à Seleção Brasileira principal sendo jogador do Bahia, acabando com um longo jejum de mais de 10 anos sem convocações de um atleta tricolor.

“É um sonho, mas acho que tenho condições de realizá-lo. Seria muito bom tanto para mim quanto para o clube. Espero conseguir”.

Confira na íntegra a entrevista exclusiva de Daniel ao eusoubahia.com, onde, além de suas expectativas quanto à Seleção principal, o lateral fala de sua vontade de estar na Copa de 2006, da emoção de ser Campeão do Nordeste, mesmo distante, da experiência de defender o Brasil na Europa, da falta de visibilidade nacional do futebol nordestino e dá maiores detalhes sobre o título obtido em Toulon.

O que muda no Daniel pós-Seleção?

Quem espera um Daniel diferente pode ficar tranqüilo. Eu vou continuar sendo do meu jeito, humilde, atencioso com todos e lutando sempre com muita garra para honrar a camisa do Bahia. O que muda mesmo é a motivação dentro de campo, porque eu fui lá, mostrei o meu valor e tenho que estar sempre lutando para voltar à Seleção.

Como você recebeu a notícia de que era Bi-Campeão do Nordeste, o seu primeiro título como profissional? (Nos dois jogos finais com o Vitória da Bahia, Daniel estava na Europa, com a Seleção).

Estava vivendo a expectativa do jogo com a Inglaterra, que decidiria a nossa passagem para as finais. Liguei para o Márcio (goleiro reserva do Bahia) e ele me disse que o primeiro tempo da final tinha terminado 0 a 0. Pensei – que bom, o título está perto. Não agüentei de curiosidade e liguei de novo pouco tempo depois e ele disse que o Vitória (da Bahia) estava vencendo por 2 a 1. Fiquei com o coração na mão, mas aí, graças a Deus, na última ligação, antes mesmo dele falar, quando ouvi os gritos, já sabia que o Bahia era Campeão. Para mim, a notícia foi muito importante, porque me motivou ainda mais para o clássico lá de Toulon. Além do mais, foi o primeiro título da minha carreira como profissional, o que me deixou bastante orgulhoso.

Como você avalia o seu desempenho em Toulon?

Particularmente, acho que tive um bom desempenho. Fui elogiado por meu técnico, pelo restante da comissão e pelos companheiros e até pela imprensa de lá. Acho que representei bem o Bahia lá na Seleção.

Quando você ficou sabendo que seria titular do Brasil em Toulon?

Só fiquei sabendo que ia ser titular na véspera do primeiro jogo, mas já desconfiava. Primeiro, porque o Paquetá (técnico do Brasil) só levou um lateral-direito, eu. Os outros dois laterais eram canhotos, o Anderson (Flamengo) e o Maxuel (Ájax). Segundo, porque eu sempre jogava entre os titulares nos treinos. Fiquei feliz de ter conquistado a confiança e a admiração do treinador pelo meu futebol.

Você sofreu algum tipo de preconceito por ser o único jogador que atua no futebol nordestino entre os convocados?

De jeito nenhum. Isso até me surpreendeu, pois eu vinha do Nordeste e estava no meio de jogadores de grandes clubes da Europa, como o Adriano (Fiorentina) e o Eduardo Costa (Bordeaux). Mas todos me trataram super bem e foram muito importantes para que eu me sentisse à vontade na Seleção. Principalmente o Robert (Servett/SUI), um baiano que joga há muito tempo na Europa. Ele já tinha experiência na Seleção, se aproximou de mim pelo fato de sermos conterrâneos e me entrosou com o restante dos companheiros.

Qual foi o fator crucial para a obtenção do título na França?

Além da qualidade técnica de todo o grupo, a união dos jogadores e o bom clima entre todos na Seleção foi o que pesou para conquistarmos a taça.

Como foi o seu relacionamento com o técnico da Seleção, Marcos Paquetá?

Eu não o conhecia e me surpreendi com o seu comportamento com os jogadores. Ele é bastante aberto e atencioso, não é durão, mas conseguiu conquistar a simpatia e o respeito de todos. Ele dialogava bastante com a gente, nos deixava a vontade e passava bastante confiança.

Qual a imagem que os outros jogadores que estiveram com você na Seleção têm do Bahia?

É a melhor possível. Todos consideram o Bahia uma potência do futebol nordestino e brasileiro. Alguns, como o Robert, torcedor tricolor desde a infância, até sonham em jogar no Bahia.

Qual foi a maior dificuldade que vocês enfrentaram para ganhar o Torneio de Toulon?

A maior dificuldade foi o entrosamento da equipe dentro de campo, devido à falta de treinos. Treinamos umas duas vezes juntos antes de jogar. Mas com o passar dos jogos, isso foi sendo superado.

E o momento de maior emoção?

Tudo aquilo que eu tava vivendo na Seleção, fazendo parte daquele grupo pela primeira vez, já estava sendo muito bom. Mas conquistar o título vestindo aquela camisa amarelinha, de tantas glórias e tradições no futebol mundial, levantar a taça e dar a volta olímpica, foi demais. Certamente, foi um dos momentos da minha carreira que eu nunca vou esquecer.

Qual foi o jogo mais difícil na caminhada rumo ao título?

Por ser um clássico, e pela circunstância de estar valendo uma vaga na final, o jogo com a Inglaterra (o último da primeira fase) foi o mais difícil. Foi uma partida tensa, nervosa, afinal, era um clássico do futebol mundial. Graças a Deus, seguramos o empate, resultado que nos favorecia. A final, com a Itália, foi menos complicada. A pressão de conseguir uma vaga na decisão já tinha passado. Entramos mais tranqüilos em campo e conseguimos jogar o nosso melhor futebol, vencendo, sem dificuldades, por 2 a 0.

Qual foi a maior lição que você tirou desta experiência na Seleção?

A minha maior lição na Seleção foi ter adquirido uma maior responsabilidade tática. Lá, como a gente jogava no 4-4-2, com apenas dois volantes, eu tinha liberdade para atacar, mas precisava voltar e marcar forte na defesa. Isso aconteceu também por causa das características dos nossos adversários, que jogavam mais na base da pegada e da força. Voltei mais consciente. Hoje, me considero um jogador com maior responsabilidade tática, que pode contribuir mais com o time como um todo.

E agora? Depois de brilhar na Sub-21, você almeja chegar à Seleção Principal?

A convocação para a Sub-21, certamente facilitou as coisas para que eu realize o meu maior sonho, que é chegar à Seleção Principal. Isso porque eu sei que as categorias inferiores são observadas por membros da comissão técnica principal. Mas sei que, para chegar até lá, não posso me deslumbrar, tenho que manter os pés no chão e continuar o trabalho sério que venho desenvolvendo aqui no Bahia.

Qual a importância do Bahia neste momento tão bom da sua carreira?

O Bahia vem sendo a minha casa desde 1999, quando cheguei nas Divisões de Base do clube. Aprendi muitas coisas aqui e devo tudo o que sou hoje ao Tricolor. Por isso, eu tenho uma enorme gratidão e um respeito muito grande por todos aqui e gostaria de retribuir tudo o que fizeram por mim chegando à Seleção principal como jogador do Bahia, o que seria um orgulho muito grande não só para mim, como para toda a torcida tricolor.

Você acredita que há um certo preconceito aos jogadores do futebol nordestino na Seleção principal?

O problema talvez seja o fato do futebol nordestino ter pouca cobertura e visibilidade nacional. Aí o técnico da Seleção acaba optando por jogadores das regiões que estão mais na mídia, que são mais badalados. Eu acho que já tá na hora disso acabar, espero contribuir para o fim desse preconceito, sendo convocado. Acho que, se o Bahia fizer uma boa campanha no Brasileirão, tenho boas chances.

Qual o seu maior sonho?

Meu maior sonho é, primeiro, ser convocado para a Seleção Principal, depois, disputar uma Copa do Mundo com a camisa do Brasil. Quem sabe isso não acontece em 2006? Esse é o meu objetivo e vou correr atrás dele com muita garra. Até lá, espero proporcionar muitas alegrias à Nação Tricolor.