Confira entrevista concedida por Zetti ao Pelé.net. Técnico fala do Bahia, da carreira e do sonho de comandar o Brasil.
Fonte:Guilherme Costa e Levi Guimarães Luiz, da MBPress, especial para o Pelé.Net
SÃO PAULO - Com o término dos Campeonatos Estaduais e a expectativa para o início do Brasileiro, o nome do técnico Zetti passou a aparecer nas especulações sobre quem seria o novo técnico de alguns dos maiores times do Brasil.
No entanto, o treinador preferiu não esperar um possível contato de Palmeiras, São Paulo ou Flamengo, e aceitou a proposta do Bahia, cujo principal objetivo, em 2005, é ficar entre os dois primeiros da Segunda Divisão para voltar à elite do futebol brasileiro na próxima temporada.
Em 2004, comandando outro Tricolor nordestino, Zetti atingiu o objetivo, e, atualmente, o Fortaleza é o único representante da região na Série A do Campeonato Brasileiro. Talvez por isso, o técnico seja visto atualmente como especialista em tirar times de situações complicadas.
Para o próprio Zetti, porém, este estigma não existe. Ele encara as participações na Segundona apenas como uma fase de sua carreira. Um passo natural na carreira de todo técnico iniciante.
Mas ele mostra que suas ambições vão longe. Nesta entrevista exclusiva ao Pelé.Net, Zetti falou sobre o sonho de atingir o auge na carreira de um treinador, chegando ao comando da seleção brasileira e sobre as expectativas para o trabalho nos próximos meses, tentando tirar o Bahia da Segundona.
O TIME DO BAHIA
Pelé.Net - Como você avalia o atual momento do Bahia?
Zetti - O time vem de uma boa campanha no Estadual, mesmo com a derrota na final. Temos jogadores de qualidade e aos poucos vamos vendo a melhor postura para que a equipe possa render o máximo dentro de campo.
Pelé.Net - Qual é o objetivo em 2005?
Zetti - Vamos brigar pelo título. O projeto do Bahia está voltado para isso. Temos condições de nos classificar e esse é o primeiro objetivo. Vamos brigar pela vaga e depois começa outra competição.
Pelé.Net - Como está a vida em Salvador?
Zetti - Ainda estou me adaptando. Cheguei há três dias e ainda estou conhecendo melhor a cidade e o elenco.
Pelé.Net - Qual a diferença do trabalho agora para o do ano passado, no Fortaleza?
Zetti - No Fortaleza eu já peguei o time praticamente pronto. Cheguei no final da primeira fase e estávamos quase classificados (passamos em quinto lugar). No Bahia, pela campanha que o time fez no ano passado, a pressão para subir é maior.
Pelé.Net - O Bahia já tem a cara do Zetti?
Zetti - São só três dias, mas já encontrei uma equipe muito parecida com o que eu gosto. O time tem marcação forte, velocidade e entrosamento. Não destaco um jogador só porque todos têm boas condições técnicas. Quem entrar precisa estar bem e representar o Bahia de forma positiva.
Pelé.Net - O que falta para ficar com a sua cara?
Zetti - Precisamos apenas conversar para acertar o posicionamento ofensivo e nas bolas paradas. O esquema é bem próximo do que eu quero implantar e não teremos problemas.
Pelé.Net - E o elenco do Bahia? Você já pediu contratações?
Zetti - Temos 31 jogadores, todos com qualidade, e ainda estou analisando melhor o elenco. Precisamos ver com calma para identificar as carências da equipe sem cometer nenhuma atitude desesperada. O que for feito vai ser feito dentro da filosofia do Bahia, sem qualquer precipitação.
Pelé.Net - Você pensa em dispensas?
Zetti - Não, isso não está nos planos. Vamos ver primeiro, mas só se for muito necessário. Acho mais fácil aumentarmos o grupo.
Pelé.Net - E as seguidas derrotas para o Vitória? Isso aumenta a pressão?
Zetti - Não estamos nem falando disso. É passado, não volta mais. Não adianta ficarmos pensando nisso e esquecermos a Série B. Precisamos estar voltados para o Brasileiro, que é a competição mais importante do ano.
Pelé.Net - Mas existe forma de apagar esse mau retrospecto contra o rival?
Zetti - Só aos poucos mesmo. Vamos jogar o nosso futebol e mostrar que isso foi superado.
ESPECIALISTA EM SÉRIE B?
Pelé.Net - Você é bastante experiente em Série B...
Zetti - Esta é minha terceira temporada. Comandei o Paulista em duas e no ano passado ainda trabalhei no Fortaleza. Acho que essa experiência é sempre válida.
Pelé.Net - E o estigma de treinador de acesso?
Zetti - Não tenho medo nenhum disso. A Série B é um estágio que todo técnico precisa viver e estou fazendo isso da maneira certa. É muito importante para a carreira de qualquer um. Ninguém começa logo em um time de ponta e já é apontado como um fora de série.
Pelé.Net - A participação na Série B foi decisiva para consolidar o seu nome?
Zetti - Tem sido uma experiência muito importante. É uma competição muito nivelada e exige muito a participação do treinador. É uma passagem fundamental, mas também quero disputar a Série A.
Pelé.Net - Mas você considera boa a sua passagem pela Série A?
Zetti - Foi outro estágio na minha carreira. Infelizmente, o trabalho não teve seqüência. Estou muito tranqüilo quanto a isso. Projeto muito bem a minha carreira e estou dentro dos planos.
Pelé.Net - Você poderia estar na primeira divisão se tivesse esperado um pouco...
Zetti - As coisas acontecem e acontecem de maneira rápida. Poderia estar esperando até hoje e não ter sido procurado por ninguém. O projeto do Bahia era muito bom e eu resolvi aceitar. Já tinha ficado um mês em casa, estudando e fazendo cursos. Descansei bastante também. Achei que era hora de retornar.
Pelé.Net - Mas você poderia estar no Sudeste...
Zetti - Conheço o futebol do Nordeste e sei como as coisas funcionam aqui. A torcida aqui é muito diferente. Dá um prazer muito grande trabalhar aqui e esse foi um fator determinante.
SELEÇÃO BRASILEIRA
Pelé.Net - Projeta chegar até onde?
Zetti - Quero me formar como treinador e chegar ao top dos treinadores brasileiros, que é a seleção brasileira.
Pelé.Net - Em quanto tempo você pretende assumir a seleção?
Zetti - Não tenho projeção de anos. As coisas têm acontecido de maneira muito rápida na minha carreira e fica complicado dimensionar uma idéia pro futuro. Sou técnico há apenas três anos e consegui, seguindo a lei natural das coisas, pleitear um lugar de destaque no cenário nacional.
Pelé.Net - Gostou da convocação da seleção do Parreira?
Zetti - O Brasil é tão bem servido que daria pra convocar mais 22 e fazer outra seleção forte. Os jogadores que ele chamou são os melhores do momento e seleção é momento. Talvez alguns atletas tenham ficado fora da lista, mas seleção é sempre assim. Eu tenho a minha, você tem a sua, o Parreira tem a dele. Nós precisamos respeitar o talento e a capacidade dele.
Pelé.Net - Você acha positivo esse amistoso contra a Guatemala?
Zetti - É uma grande oportunidade para o Parreira observar os jogadores do Brasil e para tirar algumas conclusões sobre o grupo. Isso é sempre positivo.
ZETTI, O TÉCNICO
Pelé.Net - Você tem realmente o Telê Santana como ídolo?
Zetti - Tenho muitas coisas boas do Telê, que foi um mestre e me ajudou muito como atleta e como pessoa. Ele sabia comandar um grupo e tirava o melhor de um elenco forte. Foi um dos treinadores com quem trabalhei que tenho admiração e cito sempre como exemplo durante o meu trabalho. Mas ele não é o único em quem eu me espelho.
Pelé.Net - Quem são os outros?
Zetti - Alguns como o Vanderlei (Luxemburgo), o (Carlos Alberto) Parreira, o (Emerson) Leão, o Levir (Culpi) e tantos outros. São pessoas de quem eu tirei coisas boas. A gente procura sempre aprender com quem vence. Os grandes técnicos são os que vencem.
Pelé.Net - Trabalhar no Nordeste é diferente de trabalhar em São Paulo?
Zetti - Não conheço organização do futebol baiano ainda, mas o Bahia não deixa a desejar para nenhum grande do futebol brasileiro. O principal na estrutura é a parte física e isso é muito bom aqui no Bahia. O CT é muito bom. Temos qualidade de alimentação, nutrição, alojamento e integração com as categorias de base.
Pelé.Net - Você gosta muito de trabalhar com a base?
Zetti - Trabalho com o que tem de melhor. Tem clube que não tem como contratar e a base é sempre uma saída. O Bahia tem 18 atletas formados aqui que estão jogando atualmente. Alguns ainda têm idade de juniores.
Pelé.Net - Mas investir na base é uma boa solução?
Zetti - É a saída para o futebol brasileiro. São jogadores com uma formação boa, com muitos jogos nos juniores e uma certa bagagem. Uma hora nós precisamos lançá-los e, quando têm qualidade, eles correspondem.
Pelé.Net - O que um jogador precisa ter para agradar o técnico Zetti?
Zetti - Não precisa fazer gols e dar 30 chapéus para ser craque. Craque é o jogador que sabe se comportar dentro de campo e que cumpre o que foi determinado para ele no projeto da equipe.